A efervescência da literatura no MST

Projetos literários construídos pelo MST, em parceria com a Editora Expressão, estimulam a produção e a leitura nos assentamentos.
DSC_0122.JPG
Leitura na reunião da Ocupação Marielle Vive, em Anápolis-GO. (Foto: Heloisa Sousa, jornalista do site Repórter Guará).

O que queremos é uma justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite”, as palavras de José Saramago ilustradas no livro Terra, representam como a literatura desde o início do Movimento Sem Terra (MST) foi importante para a fomentação da luta. Nesse contexto, bibliotecas, rodas de poesias, grupos de leitura são fundamentados nos assentamentos, na busca de construir um pensamento desalienado, o qual colabore para a força da organização, tudo isso em parceria com a Editora Ação Popular, conta o livreiro e militante André Baleeiro.

Segundo André, livreiro da Expressão Popular, presente na Agro Centro-Oeste Familiar 2019 com uma banca da editora, a literatura é muito íntima e muito próxima do MST, uma vez que, a leitura é a base da formação de todo militante do grupo. Diante disso, o movimento constrói intelectuais orgânicos a partir da formação crítica estimulada pelo estudo, além de ter parceria com teóricos, como o filósofo húngaro István Mészáros, os quais são responsáveis por formular e trabalhar questões para o movimento, explica.

Nesse sentido, foi criada, em parceria com o MST, a Editora Expressão Popular , que com um caráter educativo e formador, busca associar as questões políticas com a literatura. Por isso, André explica que a Editora, na qual é curador, ajuda a veicular e organizar as produções intelectuais do próprio movimento, e, também, promovem a impressão e a distribuição de cartilhas, boletins e histórias.

MST e a literatura

A literatura sempre foi tema prioritário em todos os espaços do MST, nos assentamentos, encontros, congressos, seja por canções, poesias de cordel, peças de teatro, ai não podemos esquecer da famosa MORTE E VIDA SVERINA – poema dramático de João Cabral de Melo Neto, que muitas vezes é encenado e sempre deu força e vida as ações dos camponeses, conta Maria Francisca da Silva Santos, filósofa, escritora e militante dos Direitos Humanos e do MST. 

Posso dizer que o MST nasceu do encontro da literatura poética e a religiosidade popular brasileira no campo”, afirma Francisca.

Essa facilidade de ser cantada e a doçura da literatura oportunizou, então, a disseminação do conteúdo político rígido destilado em versos  por todo o movimento. Além disso, possibilitou a democratização de um conteúdo intelectual, antes monopolizado por concretas paredes de papéis, mas agora disponível para formar a essência do movimento.

“A poesia do MST é uma arma subversiva. Ao subverter a ordem do discurso linguístico, ela contribui para a subversão da ordem capitalista em que estamos inseridos, reflete Maria Estefania Artigas, pesquisadora uruguaia que estuda a literatura no movimento.

Diante desse enredo, André reforça que a literatura é ferramenta importante, indispensável e formadora de todos que estão no acampamento. Mesmo que, o ativista receba uma função mais física no acampamento, ele ainda participará dos grupos de estudo, aludindo ao método Josué de Castro, em que tem o tempo para trabalho, tempo para estudo e tempo para lazer.

No entanto, nem todos são seduzidos pela literatura disponível, o livreiro esclarece que alguns sofrem de problemas de visão não tratados, não possuem conforto lendo e, assim negam as letras. Em função disso, a literatura ainda ainda sofre certa resistência pela classe trabalhadora, portanto alguns obstáculos precisam ser vencidos e os projetos literários possuem essa obrigação.   

Por isso, projetos, palestras, livros que essas pessoas se veem são importantes para a consolidação da literatura no campo. Francisca, chama a atenção para as discussões ocorridas na escola do MST, Florestan Fernandes, sobre a literatura no processo de formação dos sem terras.  Como também, faz algumas indicações de livros que contam a historia do movimento como o livro “Pé de Poesia”, compilado de 15 poemas, do Coletivo de Juventude do MST, coordenado por Silvania Soares, Leandra Lima e Isaias Torres, além de auxiliar em projetos literários de assentamentos próximos.

Estou acompanhando o Assentamento Canudos, localizado entre Campestre e Palmeira de Goiás, meu trabalho é ajudá-los(as) a contar sua história. O nome Canudos é em homenagem a luta e resistência dos camponeses de Canudos interior da Bahia, massacrados há 100 (cem) anos”, comunica Francisca.

Literatura para formação infantil

site ranieeee
Sem Terrinhas mostram a importância da literatura para o crescimento do movimento. (Foto: Reprodução/ Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Matheus Alves).

A importância de ouvir muitas, muitas histórias, escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo”, afirma a escritora brasileira Fanny Abramovich ao site do MST.

Dessa forma, observando a importância que a literatura, como forma de resistência, tem para moldar criticamente a criança e o jovem, André ainda ressalta a importância das letras para formação de uma geração de “sem terrinhas” mais engajada, a qual não questione não somente o latifúndio da terra, mas, também, o da arte.  

Posto isso, o livreiro revela como o MST influencia e estimula as crianças a terem um hábito de leitura e, também, tentando erradicar o analfabetismo dentro do movimento. Para isso, durante reuniões e assembleias, são distribuídos textos que todos podem ler, além de rodas de leitura, de bibliotecas nos assentamentos e de campanhas de arrecadações de livros infantis.

    

 


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s